“Apocalípticos e Integrados: sobre como transformar o pensamento e rever o presente”

Apocalípticos e Integrados: sobre como transformar o pensamento e rever o presente

Resenha de Leandro Raphael de Paula1

Obra fundamental para os cursos de Comunicação Social, “Apocalípticos e Integrados” é uma reunião de ensaios sobre cultura de massa do autor italiano Umberto Eco (2006). Nessa obra ele desmistifica boa parte dos preconceitos mais comuns sobre coisas também bastante ordinárias em nosso cotidiano, como a televisão, a música pop e os quadrinhos. Contudo, a nossa perspectiva sobre esse livro começará com um pouco sobre o Mediterrâneo.

Embora o continente africano seja o berço dos primeiros hominídeos é a margem europeia do Mar Mediterrâneo que se concebe como o lugar de nascimento da cultura, ou pelo menos é assim que nós ocidentais costumamos, erroneamente, pensar. Naturalizamos essa ideia, porque ali surgiram as mais importantes civilizações para o ocidente, a grega e a romana, às quais, justiça seja feita, devemos o pensamento filosófico, o direito, a democracia, a arquitetura etc., ou seja, um enorme arcabouço de elementos culturais com tudo que de bom e de ruim que ele nos trouxe.

Outro marco histórico mediterrâneo a destacar é o Renascimento Italiano, momento no qual não se podia ainda diferenciar ciência, filosofia e arte, e, em que, boa parte do conhecimento científico desenvolveu-se como conhecimento artístico. É ali e nessa época que o arquiteto Filippo Brunelleschi retoma o sistema da perspectiva, método que permitiu a ilusão de tridimensionalidade na pintura, a teorização desse sistema é atribuída ao também arquiteto Leon Battista Alberti. Conhecida desde a Antiguidade Clássica, a perspectiva é retomada no Renascimento como o único sistema, no que se entendeu depois como teoria das proporções. “O sistema perspéctico do Quatrocentos é, pois, à redução a unidade de todos os modos de visão possíveis: o ponto de localização ideal é o frontal” (ARGAN, 2003, p. 132).

O que se inicia como uma aplicação visual das leis da geometria euclidiana acaba por se transformar na medida de todo o pensamento da época. Retomamos o Renascimento por dois motivos. Primeiro, o modelo cultural renascentista, que se apoiava no humanismo da antiguidade clássica grega, acabou se tornando a medida do que deveria ser o modelo cultural para o ocidente inteiro, ao invés de ser um modelo. As consequências disso são devastadoras para a compreensão de outras culturas, como são as dos países que foram colonizados a partir do século XV. Estas foram consideradas inferiores e necessitariam chegar ao patamar de um mundo civilizado, forma-se então o pensamento eurocêntrico. O eurocentrismo na cultura faz com que parte dos europeus veja a Europa como a referência para cultura ocidental e, o que é ainda mais nocivo, povos de outros países, o Brasil, por exemplo, como inferiores (SHOHAT; STAM, 2006).

O segundo é que no Renascimento também nasce um modelo de homem, cuja formação ainda é a que se espera do homem contemporâneo. Essa é uma das críticas que Eco faz ao que entende como uma visão crítica, porém aristocrática de mundo, a tentativa de compreender o homem contemporâneo aos moldes de um tempo que não é mais o seu e não corresponde ao contexto histórico em que vivemos.

O autor entendia, já na década de 1960 antes das discussões sobre pós-modernidade, que o homem contemporâneo vive um contexto diferenciado, no qual há uma nova forma de cultura, a cultura de massa. A bem da verdade, todo contexto histórico é diferenciado, mas o que Eco chama atenção é que precisamos entender qual seria a medida do nosso e como compreendê-lo de uma forma que não seja redutora, em especial como foi a proporção áurea2, ou divina, para o Renascimento.

Para tanto, ele analisa duas posições aparentemente distintas sobre a cultura de massa, as quais denomina integrada e apocalíptica. Invertemos a ordem do título, porque da posição dos integrados pouco se fala, são citados a título de enumeração dos argumentos de defesa da cultura de massa, mas o autor afirma que no fundo há uma pretensa ingenuidade nociva nas análises que simplesmente entendem a cultura de massa como algo de uma bondade inata. O início do livro foca-se abertamente nos estudos realizados pelos apocalípticos, ou críticos-aristocráticos, como são referidos em algumas passagens, inclusive, Eco dedica o livro a estes, pois “Sem seus requisitórios, injustos, parciais, neuróticos, desesperados, não teríamos podido elaborar nem as três quartas partes das ideias que sentimos com eles compartilhar; e talvez nenhum de nós se tivesse apercebido de que o problema da cultura de massa nos envolve profundamente, e é sinal de contradição para a nossa civilização” (ECO, 2006, p. 30).

Olho: De forma alguma a crítica pode ser esquecida, o que se pede ao olhar para a cultura de massa não é que se prescinda. da crítica, mas sim que se abandone uma postura inadequada ao olhar para aquela.

Contudo, quem seriam os apocalípticos e os integrados? Para os alunos de Comunicação há uma imagem pré-concebida bastante rápida, de um lado os apocalípticos são representados pelos teóricos críticos da conhecida Escola de Frankfurt. Do outro, os integrados teriam em suas fileiras os pesquisadores administrativos norte-americanos, como Lazarsfeld. O que não está de todo incorreto, Eco cita uma das análises de Adorno sobre um meio de comunicação, porém, isso não poderia ser aplicado a Walter Benjamin, por exemplo, e, em geral, o autor faz referências a intelectuais que entende como apocalípticos, sem filiá-los aos teóricos críticos. Além disso, o autor italiano utiliza-se da gramática como metáfora para explicar que apocalípticos e integrados não correspondem a uma substantivação, ou seja, não há algo definido especificamente como um dos dois, ambos seriam adjetivações.

No mais óbvio, tanto o apocalíptico quanto o integrado tratam do fenômeno da cultura de massa, ambas são posições nocivas, como costumam ser a maioria das posições maniqueístas. Eco usa a ironia para inverter o lugar do apocalítico, que normalmente é assumido como alguém que escreve para um público selecionado, os homens da cultura. Isso se explica pelo que ele expõe: “No fundo, o apocalítico consola o leitor porque lhe permite entrever, sob o derrocar da catástrofe, a existência de uma comunidade de ‘super-homens’, capazes de se elevarem, nem que seja apenas através da recusa, acima da banalidade da média” (ECO, 2006, p. 09. Grifo nosso). O trecho destacado mostra outra vez o tom irônico que o autor confere à atitude autoindulgente a qual a leitura de textos críticos pode levar.

Eco continua a distinção entre as adjetivações a partir da visão de super-homem para as duas perspectivas. Atribuído o nietzschiano, ou o pseudonietzschiano como frisa o autor, para os críticos-aristocráticos e o super-homem dos quadrinhos para os integrados, apenas para chegar à conclusão:
Mas este mundo, que uns alardeiam recusar e outros aceitam e incrementam, não é um mundo para o super-homem. É também o nosso. Nasce com o acesso das classes subalternas à fruição dos bens culturais, e com a possibilidade de produzir esses bens graças a processos industriais (ECO, 2006, p. 11).

A argumentação foca-se nas ideias dos apocalípticos, porque, mesmo com os preconceitos naturalizados nestas, elas propõem colocar o fenômeno da cultura de massa sob a lupa do olhar crítico. De forma alguma a crítica pode ser esquecida, o que se pede ao olhar para a cultura de massa não é que se prescinda da crítica, mas sim que se abandone uma postura inadequada ao olhar para ela.
Nada disso exclui o julgamento severo, a condenação, a atitude rigorista: mas aplicados em relação ao novo modelo humano, e não em nostálgica referência ao velho. Em outros termos: exige-se, por parte dos homens de cultura, uma atitude de indagação construtiva; ali onde habitualmente se opta pela atitude mais fácil (ECO, 2006, p. 35).

O livro é dividido em três partes: “Alto, Médio, Baixo”; “As Personagens”; e “Os Sons e as Imagens”. Nestas, de fato, só se trata da distinção entre apocalíticos e integrados na primeira, mais especificamente no ensaio “Cultura de Massa e ‘Níveis’ de Cultura”. As duas são apenas um mote para que o autor faça o que lhe interessa de verdade, Eco procura construir uma proposição metodológica sobre a cultura de massa. Tal proposição parte de algumas premissas. Uma delas é a de que se deve ultrapassar a transformação de conceitos em fetiche. Eco, mais uma vez, inverte o “jogo” ao demonstrar que os conceitos dos apocalíticos acabam se tornando conceitos-fetiche, em especial pelo exemplo que utiliza, indústria cultural. Para Adorno e Horkheimer (1985) – os primeiros a trabalhar com o conceito de indústria cultural –, no contexto do capitalismo a indústria cultural torna a arte um fetiche. Com tal inversão Eco reforça sua proposição dos apocalípticos como aqueles que consolam o leitor, reforçando a decadência da cultura da qual só podem escapar aqueles que participam da “comunidade reduzidíssima – e eleita de quem escreve e de quem lê ‘nós dois, você e eu, os únicos que compreendem, e estão salvos: os únicos que não são massa” (ECO, 2006, p. 09).

Outra premissa é a de que os produtos da cultura de massa devem ser analisados a partir de sua própria linguagem. Para o autor, não se pode analisar um produto da cultura de massa, sem antes entender a sua linguagem, por isso a maior parte do livro está centrada em ensaios analíticos de obras, como as histórias em quadrinhos, ou fenômenos da cultura de massa, como a música de consumo de Rita Pavone.

Eco demonstra analiticamente, pela reflexão estética e análise de objetos empíricos, como os níveis de cultura não passam de justificativa para a manutenção de um determinado status quo, que não condiz com a realidade nem das obras, nem daqueles que as fruem: “Numa sociedade de massa, a comunidade dos consumidores de mensagens prevê uma série de reações que não são assim tão facilmente redutíveis ao modelo unitário do homem-massa” (ECO, 2006, p. 87).

Os processos da cultura de massa são processos da dinâmica da cultura. Como a criação de mitos e personagens, na criação de estrelas, como foi Rita Pavone, cantora italiana sobre a qual o autor diferencia a mulher/menina e a personagem que se criou em volta. Criam-se mitos de acordo com tempo vivido, o erro é entendê-los como histórias do passado, ao invés de projeções de anseios e explicações para o que não se compreende. Seria uma radicalização da teoria de Eco comparar Rita Pavone à provocante brasileira Rita Cadillac? Possivelmente, mas acreditar que não se pode fazê-lo seria apenas uma nova forma de hierarquizar a cultura.

Para o autor,
O universo das comunicações de massa é – reconheçamo-lo ou não – o nosso universo; e se quisermos falar de valores, as condições objetivas das comunicações são aquelas fornecidas pela existência dos jornais, do rádio, da televisão, da música reproduzida e reproduzível, das novas formas de comunicação visual e auditiva (ECO, 2006, p. 11).

Conclusão que deveria ser óbvia, mas que demonstra a sensibilidade de Eco para com o contemporâneo. Aliás, a própria atividade de Eco como escritor de romances “fala” muito desse contemporâneo, no qual as comunicações de massa são preponderantes e podem fazer um autor tão erudito quanto o Umberto Eco se tornar um best seller, como aponta Néstor García-Canclini no conhecido “Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade”.

Nascido ainda na primeira metade do século XX, Umberto Eco é um autor cuja argumentação clara e balizada permite que se reinvente o olhar sobre o contemporâneo do século XXI que está apenas na segunda década. É a lição de um mestre e é a partir dela que se deveria tomar as bases para discutir cultura de massa, ao invés de se continuar procurando respostas em modelos do passado ao qual os estudiosos se apegam e que não dão conta da realidade contemporânea, como faz o personagem Gil, criação de Woody Allen, em “Meia Noite em Paris”. Resta trabalhar para se conseguir chegar a mesma conclusão de Gil, de que o passado é bonito e brilhante e deve-se reverenciá-lo, mas com o olhar atento ao presente.

1 Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Artes da Universidade Federal do Pará (UFPA). Bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), monitor da disciplina Teorias da Comunicação do Programa de Pós-Graduação Comunicação, Cultura e Amazônia da UFPA. E-mail: raphael-l@uol.com.br.

2 O matemático grego Euclides (325-265 a. C.) desenvolveu o sistema da proporção divina, que recebe este nome porque na época os números e a ciência tratavam de relações também místicas e divinas. Em termos práticos, Euclides entendia que uma reta quando dividida de como chamou razão extrema e média obtém-se a proporção divina, expressa no símbolo Φ (phi). É por essa perspectiva que se compreende que as retas só se cruzam no infinito (esse modelo também é aplicável à natureza, para entender como, clique aqui e assista ao vídeo). Em termos matemáticos isso se representa no esquema: AB/AC = AC/CB. Fonte: HEMENWAY, Priya. O código secreto: a fórmula misteriosa que governa a arte, a natureza e a ciência. Koln: Evergreen, 2010.

REFERÊNCIAS

ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. A Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

ARGAN, Giulio Carlo. História da arte italiana: de Giotto a Leonardo v.2. São Paulo: Cosac & Naify, 2003, p. 132.

SHOHAT, Ella; STAM, Robert. Crítica da Imagem Eurocêntrica: multiculturalismo e representação. São Paulo: Cosac Naify, 2006.

UMBERTO, Eco. Apocalípticos e Integrados. São Paulo: Perspectiva, 2006.

Fonte: Caderno de Resenhas produzido pelos alunos da Turma de 2011 do Mestrado Acadêmico em Ciências da Comunicação do Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Cultura e Amazônia (UFPA).
 

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